sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

era legal ser petista nos anos 1990


Apesar de nunca ter me deixado seduzir, sou forçado a admitir: era legal ser petista nos anos 1990. Primeiro porque quase todo mundo era petista; depois porque havia algo de desafiador na ideia de eleger um metalúrgico como presidente do país. Nos anos 1990 éramos todos jovens e ousados e revoltadinhos. Levantar uma bandeira vermelha era simplesmente natural.
Hoje em dia, contudo, só continuam petistas três tipos de pessoas: os burros, os canalhas e aqueles que, por falta de palavra melhor, vou chamar de transtornados. Dos primeiros eu tenha certa pena, reconheço; dos segundos, raiva. Quanto aos transtornados, eles me fascinam na mesma medida em que me causam repulsa.
Dos burros não há muito o que falar. Eles simplesmente ignoram os fatos e acreditam cegamente na propaganda oficial. Como exemplo posso citar uma senhora que encontrei na farmácia outro dia. Ao receber a caixinha de remédio do atendente, ela se virou para a amiga e disse: “Meu remédio para a pressão a Dilma me dá de graça”. Ou seja, a pessoa não tem nenhuma noção de que está pagando pelo remédio com os impostos que paga. Entre os burros, pois, incluo os ingênuos – e em muitos casos a burrice não é mais do que isso mesmo: uma ingenuidade dolosa.
Os canalhas são facilmente encontrados nas redes sociais. São pessoas esclarecidas que defendem o Partido dos Trabalhadores porque levam alguma vantagem nisso. É gente que ocupa cargo comissionado e que ganha contrato do governo, por exemplo. Mas há um tipo de canalha especial: o fanático. Para ele, o petismo é uma religião. E ele defenderá seus papas, papisas, santos e diáconos até a morte, usando argumentos os mais sórdidos. Não dá para argumentar com fanáticos. A militância deles é transcendente; eles se consideram escolhidos, destinados a governar o restante da Humanidade.
Por fim, há aqueles que chamo, por falta de palavra melhor, de transtornados. Divido os transtornados em quatro subgrupos: os traumatizados, os românticos, os petistas sociais e, por fim, os psiquiátricos.
Minha inteligência me salvou, mas eu poderia muito bem ter me incluído, em algum momento, entre os que são petistas porque ficaram traumatizados com os anos 1990. Não foi fácil crescer naquela época. Foi difícil sobreviver a greves intermináveis nas faculdades e às absurdas taxas de desemprego. Os petistas traumatizados cederam aos encantos da sereia vermelha e têm uma aversão patológica por qualquer coisa não-petista porque suas lembranças pessoais dos anos 1980 e 1990 são ruins.
Já os petistas românticos são aqueles que acreditam na esquerda moleque, de várzea. São saudosistas de uma utopia. E se recusam a perceber que o sonho ruiu, que o Metalúrgico se corrompeu, que o poder vicia, embriaga e, em última análise, destrói. Os românticos usam argumentos que opõem pobres e ricos porque creem que os pobres (entre eles o Metalúrgico) são de alguma forma seres moral e politicamente superiores.
Mas os transtornados que mais chamam minha atenção são os petistas sociais. Trata-se daquela pessoa que cresceu entre petistas (burros, canalhas ou transtornados, sei lá) e convive com petistas e que, apesar de todos os pesares, segue petista para não ofender os amigos, para não ser excluído. É gente que teme criticar o PT para não ser chamado de “coxinha”, para não perder a namorada, para não irritar o chefe e os amigos.
Por fim, o caso mais grave entre os transtornados: o petista psiquiátrico. Este é até caricatural. Ele grita contra a Rede Globo e a Veja, sai por aí dizendo que todo não-petista pertence à Opus Dei, vê conspirações da CIA em todos os lugares e diz que os partidos de oposição são nazistas. São narcisistas, claro, e creem possuir uma inteligência superior capaz de perceber teorias conspiratórias que mais ninguém enxerga.
Reconheço: era legal ser petista nos anos 1990. Hoje, contudo, o petismo é doença que se cura com escola, cadeia ou algumas visitas a um bom psiquiatra.

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